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Alimentação de Bezerros: Guia Completo do Colostro ao Desmame para Alta Performance
A alimentação de bezerros é o pilar mais crítico para o sucesso econômico e zootécnico de qualquer propriedade pecuária, seja no segmento de leite ou de corte. Durante as primeiras semanas de vida, o bezerro passa por transformações anatômicas e fisiológicas profundas, transitando de um estado funcional de pré-ruminante — no qual o abomaso é o principal órgão digestivo — para o estado de ruminante pleno. O sucesso desse processo de transição depende exclusivamente da qualidade nutricional dos alimentos fornecidos, do manejo sanitário e do rigor no cumprimento de protocolos alimentares.
Alimentação de Bezerros: Guia Completo do Colostro ao Desmame — Imagem: thirsty por scott1346 (BY)
Investir de maneira correta na alimentação de bezerros nos primeiros 90 dias traz impactos diretos que perdurarão por toda a vida produtiva do animal. Estudos zootécnicos demonstram que bezerras que apresentam um ganho de peso diário (GMD) superior a 700 gramas no período pré-desmame atingem a puberdade mais cedo, possuem menor idade ao primeiro parto e produzem significativamente mais leite na primeira lactação. Da mesma forma, na pecuária de corte, a nutrição neonatal adequada garante carcaças mais pesadas e diminui consideravelmente o tempo até o abate.
Neste guia completo e aprofundado, abordaremos detalhadamente todas as fases do desenvolvimento nutricional do bezerro. Desde a colostragem imediata após o nascimento até o desmame racional, você aprenderá a formular estratégias de alta eficiência com base no uso de concentrado inicial, sucedâneos de qualidade, suplementação mineral e protocolos de manejo com foco na rentabilidade do produtor rural. Para compreender como essa gestão se integra ao contexto macro do setor, vale consultar nosso panorama sobre o agronegócio brasileiro e a pecuária nacional.
Índice
1. Importância Estratégica da Alimentação de Bezerros no Desenvolvimento do Rebanho
2. Manejo do Colostro Bezerro: O Primeiro Passo para a Sobrevivência
3. Fase de Aleitamento Líquido: Leite para Bezerros e Sucedâneos Lácteos
4. Introdução da Ração para Bezerros e Concentrado Inicial
5. Nutrição Mineral Bezerros: Vitaminas e Macrominerais Essenciais
6. Protocolos e Programas de Alimentação por Fase (Do Nascimento aos 90 Dias)
7. Estratégias de Desmame Racional e Sem Estresse
8. Sanidade Alimentar e Principais Transtornos Digestivos
9. Perguntas Frequentes (FAQ)
10. Conclusão
1. Importância Estratégica da Alimentação de Bezerros no Desenvolvimento do Rebanho
A fase de criação de bezerros frequentemente representa a etapa de maior vulnerabilidade em uma fazenda. O recém-nascido vem de um ambiente uterino estéril e controlado para um meio externo repleto de desafios patogênicos e ambientais. Nesse cenário, a alimentação de bezerros não visa apenas cobrir as exigências de mantença do animal, mas atua como o motor de desenvolvimento do sistema imunológico, do esqueleto e da musculatura corporal.
Impacto no Ganho de Peso Diário (GMD) e Maturidade Sexual Precoce
O desempenho ponderal nos primeiros meses é um preditor direto do potencial futuro do animal. Bezerros mantidos sob nutrição restritiva ou inadequada apresentam retardo no crescimento, atrofia das papilas ruminais e comprometimento da capacidade de absorção de nutrientes. Por outro lado, um programa de alimentação otimizado busca ganhos de peso variando entre 700 g/dia e 900 g/dia no período aleitado.
Na pecuária de leite, cada 100 gramas adicionais de ganho de peso diário antes do desmame podem se traduzir em mais de 100 kg a 200 kg de leite produzidos na primeira lactação. Na pecuária de corte, bezerros desmamados mais pesados desfrutam de um efeito compensatório positivo, alcançando o peso de terminação meses antes dos animais subnutridos na infância. Tecnologias de monitoramento nutricional e automatização já estão integradas à pecuária de precisão no Brasil, permitindo acompanhamento individual do consumo diário.
Programação Metabólica e Epigenética na Fase Pré-Desmame
O conceito de programação metabólica preconiza que o ambiente nutricional vivenciado pelo jovem ruminante em suas primeiras semanas de vida altera permanentemente a expressão de seus genes (epigenética). Uma alimentação rica em proteína e energia durante o aleitamento estimula a proliferação de células parenquimatosas na glândula mamária de fêmeas jovens e melhora a eficiência de conversão alimentar em machos.
Quando a alimentação de bezerros falha nos primeiros 60 dias de vida, a perda no potencial genético jamais é totalmente recuperada na fase adulta, mesmo que a dieta seja corrigida posteriormente. Por essa razão, a nutrição de precisão na fase pré-desmame é considerada um investimento de altíssimo retorno econômico.
Retorno Financeiro e Redução da Mortalidade Neonatal
A mortalidade de bezerros em propriedades rurais no Brasil ainda atinge índices inaceitáveis de 8% a 15% em muitas regiões. No entanto, fazendas tecnificadas mantêm essa taxa abaixo de 3% mediante protocolos rigorosos de colostragem e nutrição líquida. Reduzir a mortalidade neonatal significa preservar o patrimônio genético do rebanho, diminuir custos com tratamentos veterinários e maximizar a taxa de descarte involuntário de vacas adultas, mantendo a fazenda altamente lucrativa.
2. Manejo do Colostro Bezerro: O Primeiro Passo para a Sobrevivência
O uso correto do colostro bezerro é a intervenção de manejo individual mais importante na vida de um bovino. Os bovinos possuem placenta do tipo epiteliocorial, a qual impede a transferência de imunoglobulinas (anticorpos) da mãe para o feto durante a gestação. Dessa forma, o bezerro nasce completamente desprovido de imunidade humoral (agamaglobulinêmico) e depende vitalmente da ingestão e absorção do colostro para adquirir imunidade passiva.
A Janela de Absorção de Imunoglobulinas (IgG) e Permeabilidade Intestinal
O intestino delgado do bezerro recém-nascido possui células epiteliais especializadas capazes de absorver macromoléculas intactas, como as imunoglobulinas IgG, por macropinocitose. No entanto, essa permeabilidade intestinal é temporária e reduz-se rapidamente após o nascimento:
Nas primeiras 4 horas de vida: A absorção intestinal de imunoglobulinas é máxima (aproximadamente 50% de eficiência).
Com 12 horas de vida: A capacidade de absorção cai para cerca de 20% a 25%.
Com 24 horas de vida: Ocorre o fechamento intestinal completo (gut closure), impedindo a passagem de imunoglobulinas para a corrente sanguínea.
Portanto, o atraso no fornecimento da primeira refeição de colostro bezerro compromete irreversivelmente a transferência de imunidade passiva (TIP), deixando o recém-nascido vulnerável a sepse, diarreias severas e broncopneumonias.
Avaliação da Qualidade do Colostro: Refratômetro de Brix e Colostrômetro
Nem todo colostro possui a mesma concentração de imunoglobulinas. Fatores como a raça, ordem de parição, tempo entre o parto e a ordenha, estresse térmico e nutrição da vaca pré-parto influenciam diretamente a densidade do colostro. Para garantir uma colostragem eficiente, o produtor deve testar cada lote antes do fornecimento:
Refratômetro de Brix (Óptico ou Digital): É o instrumento mais recomendado pela precisão e praticidade. Um valor de Brix superior a 22% indica colostro de excelente qualidade (equivalente a ≥ 50 g/L de IgG). Valores entre 18% e 21% indicam qualidade intermediária, enquanto leituras abaixo de 18% representam colostro de baixa qualidade, impróprio para a primeira refeição.
Colostrômetro: Mede a densidade específica do colostro à temperatura padronizada de 20 °C. Leituras acima de 1,050 g/mL (zona verde) indicam alta concentração de IgG.
Abaixo, apresentamos a classificação detalhada da qualidade do colostro e as respectivas orientações de manejo alimentar:
Classificação
Grau Brix (%)
Concentração IgG (g/L)
Qualidade Nutricional e Imunológica
Recomendação de Uso
Excelente (Verde)
> 22%
> 50 g/L
Alta densidade de anticorpos e sólidos totais
Ideal para a 1ª refeição (primeiras 2 a 4 horas)
Intermediária (Amarela)
18% a 21%
30 a 49 g/L
Moderada imunidade e valor energético médio
Usar na 2ª refeição ou para bezerros mais velhos
Baixa (Vermelha)
< 18%
< 30 g/L
Pobre em anticorpos, risco de falha na TIP
Descartar para 1ª refeição; enriquecer ou descartar
Volume Ideal, Temperatura de Fornecimento e Métodos de Administração
O protocolo recomendado para garantir a transferência de imunidade passiva consiste no fornecimento de um volume equivalente a 10% a 12% do peso vivo do bezerro nas primeiras 4 horas de vida. Para um bezerro holandês de 40 kg, isso representa de 4 a 4,8 litros de colostro de alta qualidade. Em raças zebuínas de menor porte (30 kg a 35 kg), o volume inicial varia de 3 a 3,5 litros.
O colostro deve ser servido à temperatura corporal do animal, entre 38 °C e 39 °C. O aquecimento nunca deve ultrapassar 45 °C para não desnaturar as imunoglobulinas.
Quanto ao método de administração, a amamentação natural direta na vaca frequentemente falha, pois mais de 40% dos bezerros não mamam o volume suficiente no tempo hábil. Recomenda-se o uso de mamadeiras higienizadas ou, em casos de bezerros prostrados com reflexo de sucção fraco, o uso de sonda esofágica com capacidade adequada.
Bancos de Colostro e Processos de Congelamento/Descongelamento
Toda propriedade bem gerida deve manter um banco de colostro congelado. O colostro excedente de vacas de terceira ou quarta lactação com Brix superior a 25% deve ser armazenado em garrafas plásticas ou sacos específicos sanitizados. As diretrizes de conservação são:
Refrigeração (4 °C): Conserva por até 48 horas. Recomendado adicionar conservante como potássio sob orientação.
Congelamento (-20 °C): Conserva por até 12 meses sem perda significativa de IgG.
Descongelamento Racional: Deve ser realizado exclusivamente em banho-maria a no máximo 45 °C. O uso de micro-ondas ou água fervente destrói as imunoglobulinas.
Para aprender curiosidades sobre como o manejo materno influencia o comportamento dos recém-nascidos, confira nossas curiosidades sobre animais de fazenda.
3. Fase de Aleitamento Líquido: Leite para Bezerros e Sucedâneos Lácteos
Alimentação de Bezerros: Guia Completo do Colostro ao Desmame — Imagem: thirsty por scott1346 (BY)
Após a fase de colostragem (que dura tipicamente de 2 a 3 dias com a transição do colostro para o leite integral), o bezerro entra na etapa de aleitamento propriamente dita. O fornecimento adequado de leite para bezerros ou sucedâneos de alta qualidade é fundamental para sustentar a alta taxa de crescimento muscular e esquelético.
Leite Integral vs Sucedâneo Lácteo (Substituto de Leite): Composição e Viabilidade
O leite integral de vaca contém em média 3,2% a 3,5% de proteína bruta, 3,5% a 4,2% de gordura (extrato etéreo) e cerca de 12,5% de sólidos totais. É a dieta natural perfeita para o bezerro, oferecendo excelente digestibilidade e energia. No entanto, em muitas fazendas leiteiras, a comercialização do leite integral pode tornar seu uso exclusivo custoso.
Os sucedâneos lácteos (ou substitutos de leite) surgem como uma alternativa viável e economicamente atraente, desde que formulados com ingredientes de alta qualidade digestível. Sucedâneos de ponta utilizam derivados lácteos (soro de leite em pó, leite desnatado em pó) e possuem no mínimo 20% a 22% de Proteína Bruta (PB) e 16% a 20% de Extrato Etéreo (EE). Deve-se evitar sucedâneos à base de proteínas vegetais não tratadas (como soja bruta), que causam inflamação e diarreias graves em animais com menos de 30 dias.
Confira no quadro comparativo abaixo as especificações técnicas e econômicas entre o uso de leite integral e sucedâneo lácteo:
Parâmetro Nutricional / Operacional
Leite Integral de Vaca
Sucedâneo Lácteo de Alta Performance
Sucedâneo Lácteo de Baixa Qualidade
Proteína Bruta (PB em matéria seca)
25% a 27%
20% a 24%
16% a 18% (alta proteína vegetal)
Extrato Etéreo (Gordura em MS)
28% a 32%
16% a 20%
8% a 10%
Digestibilidade Aparente
> 95%
88% a 92%
< 75% (risco de diarreia)
Segurança Sanitária (Patógenos)
Médio risco se não pasteurizado
Altíssima (livre de patógenos)
Alta segurança microbiológica
Ganho de Peso Esperado (g/dia)
750 g a 900 g
650 g a 850 g
350 g a 500 g
Sistemas de Aleitamento: Convencional, Acelerado e Fracionado
O volume e o ritmo de oferta da dieta líquida variam conforme o objetivo zootécnico da fazenda:
Sistema Convencional (Restrito): Fornece cerca de 4 litros de leite por dia (10% do peso vivo), dividido em duas refeições de 2 litros. É um sistema econômico que estimula a ingestão precoce de ração para bezerros, mas limita o ganho de peso inicial (400 a 500 g/dia).
Sistema Acelerado (Intensivo): Fornece de 6 a 10 litros de leite por dia (15% a 20% do peso vivo). Permite expressar o máximo potencial genético do bezerro, com ganhos diários superiores a 800 g, exigindo maior rigor no controle de diarreias.
Sistema Step-Up / Step-Down (Fracionado): Começa com 4 a 6 litros na 1ª semana, eleva para 8 litros entre a 2ª e a 5ª semana (pico) e reduz gradualmente para 4 litros até a 8ª semana para estimular o consumo de alimentos sólidos antes do desmame.
Cuidados Sanitários, Temperatura e Acidificação do Leite
O leite ou sucedâneo deve ser preparado e servido rigorosamente entre 38 °C e 40 °C. Temperaturas frias obrigam o bezerro a gastar energia corporal para aquecer o líquido no estômago, provocando diarreias e retardo no crescimento.
A acidificação do leite com ácidos orgânicos (como ácido fórmico ou acético) até atingir um pH de 4,2 a 4,5 é uma prática valiosa em sistemas de aleitamento à vontade ou coletivos. O ambiente ácido inibe a proliferação de bactérias patogênicas como Escherichia coli e Salmonella spp., permitindo a conservação do leite por mais tempo sem estragar.
A Importância da Água Potável e Limpa Desde os Primeiros Dias de Vida
Um erro frequente na alimentação de bezerros é supor que o leite já fornece toda a água necessária. A água do leite entra diretamente no abomaso através da goteira esofágica (sulco reticular). Para que haja fermentação bacteriana e desenvolvimento do rúmen, é indispensável que a água limpa chegue diretamente ao rúmen-retículo.
Desde o 2º ou 3º dia de vida, o bezerro deve ter acesso irrestrito a água limpa, fresca e potável em bebedouros higienizados diariamente. O consumo de água está diretamente correlacionado com a ingestão de concentrado inicial: para cada quilo de ração consumido, o bezerro bebe de 4 a 5 litros de água.
4. Introdução da Ração para Bezerros e Concentrado Inicial
Ao nascer, o estômago do bezerro possui o abomaso (estômago verdadeiro) correspondendo a 60% do volume total do complexo gástrico, enquanto o rúmen responde por apenas 25%. Para que o animal consiga se alimentar de forragens e pastagens na fase adulta, o rúmen deve passar por um processo de anatomofisiologia denominado desenvolvimento ruminal.
Papel do Concentrado Inicial no Desenvolvimento de Papilas Ruminais
Diferente do que muitos produtores acreditam, não é o feno nem a fibra grossa que desenvolve as papilas do rúmen, mas sim a fermentação de carboidratos solúveis contidos na ração para bezerros. A fermentação dos grãos do concentrado inicial pelas bactérias ruminais produz Ácidos Graxos de Cadeia Curta (AGCC), principalmente o ácido butírico e o ácido propilênico (propionato).
O ácido butírico é o combustível primário que estimula o crescimento vascular e o alongamento das papilas ruminais, aumentando drasticamente a superfície de absorção de nutrientes. Sem o fornecimento precoce de concentrado, o rúmen permanece liso, fino e incapaz de absorver nutrientes de forma eficiente na fase pós-desmame.
Composição Ideal da Ração para Bezerros (Proteína Bruta, NDT, Granulometria)
O concentrado inicial deve ser formulado com ingredientes altamente palatáveis, digestíveis e livres de poeira. As especificações ideais para uma ração de bezerros de alta performance incluem:
Proteína Bruta (PB): 18% a 22% na matéria seca. A fonte proteica deve ter alta digestibilidade, como farelo de soja de boa qualidade.
Nutrientes Digestíveis Totais (NDT): 75% a 80%, derivados de fontes de energia como milho laminado, pré-gelatinizado ou triturado grosso, e farelo de trigo.
Extrato Etéreo (Gordura): 3% a 5%. Níveis de gordura acima de 6% inibem a fermentação ruminal de fibra e reduzem a palatabilidade.
Fibra em Detergente Neutro (FDN): 15% a 20%, garantindo o estímulo à ruminação sem diluir excessivamente a densidade energética.
Forma Física e Granulometria: Deve-se preferir grãos peletizados, extrusados ou milho laminado grosso misturado a melaço (ração farelada grossa melaçada). Rações finas e pirentas irritam as vias aéreas do bezerro e reduzem a ingestão em até 30%.
Estratégias para Incentivar o Consumo Precoce de Grãos
O concentrado inicial deve ser oferecido a partir do 3º a 5º dia de vida em pequeníssimas quantidades (um punhado limpo por dia) no cocho. Alimentos velhos ou úmidos devem ser descartados diariamente para evitar a proliferação de fungos e micotoxinas. Colocar um pouco de concentrado na boca do bezerro logo após o aleitamento ajuda o animal a associar o sabor da ração à saciedade.
Transição para Volumoso de Qualidade: Feno vs Pastagem
A inclusão de volumoso na dieta de bezerros aleitados gera debates entre nutricionistas. O excesso de fibra de baixa qualidade antes dos 30 dias de vida pode causar o chamado “barrigamento” (enchimento do rúmen com material indigestível que não desenvolve papilas). No entanto, o fornecimento de feno de gramíneas de excelente qualidade (como Tifton 85 ou Coastcross cortados jovens), em quantidade limitada de 100 a 200 g/dia a partir da 4ª semana, promove a expansão da musculatura ruminal e evita o hábito de ingestão de cama de bezerreiro.
Para se aprofundar em soluções biológicas sustentáveis na produção de grãos e forragens, leia nosso artigo sobre bioinsumos na agricultura moderna.
5. Nutrição Mineral Bezerros: Vitaminas e Macrominerais Essenciais
A nutrição mineral bezerros é frequentemente negligenciada, mas desempenha um papel biocatalisador indispensável em todas as reações metabólicas, na formação da estrutura óssea e no fortalecimento do sistema imune do jovem ruminante.
Micronutrientes Cruciais: Cálcio, Fósforo, Magnésio, Zinco e Selênio
Os minerais devem estar em equilíbrio constante na dieta sólida e líquida do bezerro:
Cálcio (Ca) e Fósforo (P): Fundamentais para a mineralização óssea e o desenvolvimento esquelético. A relação Ca:P ideal na ração varia de 1,5:1 a 2:1.
Magnésio (Mg): Atua na transmissão de impulsos nervosos e na síntese proteica.
Zinco (Zn) e Selênio (Se): Potentes antioxidantes. O zinco é vital para a integridade da pele, cascos e mucosas intestinais, enquanto o selênio (em conjunto com a Vitamina E) previne a doença do músculo branco (distrofia muscular nutricional).
Cobre (Cu) e Cobalto (Co): O cobre atua na síntese de hemoglobina e imunidade; o cobalto é essencial para que a microbiota ruminal sintetize a Vitamina B12.
Papel das Vitaminas A, D, E e Complexo B na Imunidade e Ossificação
Bezerros recém-nascidos possuem baixíssimas reservas hepáticas de vitaminas lipossolúveis (A, D, E), as quais devem ser supridas pelo colostro e pela dieta:
Vitamina A: Mantém a integridade dos epitélios respiratório e digestivo, funcionando como a primeira barreira contra infecções.
Vitamina D3: Regula a absorção de cálcio e fósforo no intestino e a deposição mineral nos ossos.
Vitamina E: Atua no combate aos radicais livres e potencializa a resposta imune pós-vacinal.
Vitaminas do Complexo B: Enquanto o rúmen não está plenamente desenvolvido com microbiota funcional, o bezerro depende da ingestão dietética de vitaminas do complexo B (como thiamina e riboflavina).
Suplementação Mineral via Cocho e Blocos de Sal Mineral para Bezerros
A ração concentrada comercial de alta qualidade costuma vir aditivada com premix micromineral e vitamínico. No entanto, para bezerros em sistema de pastejo com mães ou pré-desmamados em creep-feeding, o fornecimento de suplemento mineral específico para bezerros (com níveis ajustados de fósforo e palatabilizantes como melaço) é obrigatório no cocho sanitizado.
Abaixo apresentamos a tabela de exigências diárias médias de macrominerais e micronutrientes para bezerros na faixa de 50 kg a 100 kg de peso vivo, com base nas tabelas do Embrapa Gado de Leite e recomendações zootécnicas atualizadas:
Nutriente / Mineral
Exigência Diária (Bezerro 50 kg)
Exigência Diária (Bezerro 100 kg)
Função Principal no Organismo
Cálcio (Ca)
8,5 g/dia
14,0 g/dia
Crescimento ósseo e contração muscular
Fósforo (P)
5,2 g/dia
8,5 g/dia
Metabolismo energético (ATP) e ossos
Proteína Bruta (PB)
160 g/dia
280 g/dia
Ganho de massa muscular e imunoglobulinas
NDT (Energia)
1,1 kg/dia
2,1 kg/dia
Manutenção da temperatura e ganho de peso
Zinco (Zn)
40 mg/kg MS
40 mg/kg MS
Ciclização celular e imunidade mucosa
Selênio (Se)
0,3 mg/kg MS
0,3 mg/kg MS
Prevenção de miopatia e estresse oxidativo
6. Protocolos e Programas de Alimentação por Fase (Do Nascimento aos 90 Dias)
Para simplificar a rotina na fazenda e garantir a máxima eficiência técnica, o manejo da alimentação de bezerros deve ser organizado em fases bem definidas. Cada semana exige ajustes no volume de leite, na oferta de concentrado e nos cuidados sanitários.
Semanas 1 a 2: Adaptação Neonatal e Colostragem Avançada
Os primeiros 14 dias representam o período de maior risco sanitário. O foco total está na colostragem (Dia 1) e na transição para a dieta líquida (leite ou sucedâneo). O volume de leite deve ser mantido em 10% a 12% do peso vivo (4 a 5 L/dia em 2 refeições). O concentrado inicial e a água potável limpa devem ser apresentados no cocho a partir do 3º dia.
Semanas 3 a 6: Pico de Aleitamento e Estímulo ao Concentrado
Nesta fase de crescimento acelerado, o bezerro dobra seu consumo diário de energia. No sistema de aleitamento intensivo ou fracionado, o volume de leite atinge seu pico (6 a 8 L/dia). A ingestão de ração para bezerros começa a subir progressivamente de 200 g/dia para 600 g/dia. A água potável fresca deve estar sempre disponível.
Semanas 7 a 9: Transição Alimentar e Pré-Desmame
É a fase de preparação para a suspensão do alimento líquido. O volume de leite deve ser reduzido pela metade (para 2 a 3 L/dia ou apenas 1 refeição diária) para induzir a fome de sólidos. Sob esse estímulo, a ingestão de concentrado inicial dá um salto quantitativo, ultrapassando 1,0 kg a 1,5 kg por dia. Essa etapa consolida a fermentação ruminal.
Semanas 10 a 12: Desmame Definitivo e Consolidação da Dieta Sólida
O leite é completamente retirado quando o bezerro atinge os critérios zootécnicos de consumo sólido. O animal passa a receber de 1,8 kg a 2,5 kg de concentrado inicial por dia, suplementado com feno de alta qualidade ou pastagem diferida e sal mineral no cocho. Acompanhar a curva de peso com balança ou fita torácica garante que o ganho pós-desmame permaneça acima de 700 g/dia.
Abaixo, detalhamos uma planilha orientativa do esquema alimentar diário por fase de vida para bezerros de leite ou corte em aleitamento individual:
Idade (Semanas)
Dieta Líquida (Leite/Sucedâneo)
Ração Concentrada (kg/dia)
Feno / Volumoso (g/dia)
Suplementação Mineral
Dia 1 (0 a 24h)
Colostro 10-12% do PV (4 a 5 L)
Não ofertar
Não ofertar
Via Colostro maternal
Semana 1 (Dias 2 a 7)
4,0 L/dia (2x 2,0 L)
Oferecer 50 g a 100 g (estímulo)
Não ofertar
Água limpa à vontade
Semanas 2 a 4
5,0 L a 6,0 L/dia (2x 2,5-3,0 L)
200 g a 500 g/dia
Opcional (50 g a 100 g feno)
Inclusa no concentrado + Água
Semanas 5 a 7
6,0 L/dia (ou pico de 7-8 L)
600 g a 1,0 kg/dia
100 g a 200 g feno fino
Inclusa no concentrado + Água
Semanas 8 a 9 (Pré-desmame)
2,0 L a 3,0 L/dia (1x pela manhã)
1,0 kg a 1,5 kg/dia
200 g a 300 g feno fino
Sal mineral à vontade + Água
Semana 10+ (Pós-desmame)
Zero (Desmamado)
1,8 kg a 2,5 kg/dia
À vontade (feno/pasto)
Sal mineral específico no cocho
7. Estratégias de Desmame Racional e Sem Estresse
O desmame é um dos momentos mais estressantes da vida do bovino. A transição abrupta da dieta líquida para a dieta sólida, associada à mudança de ambiente e ao reagrupamento social, pode desencadear a queda da imunidade e o surgimento do “estresse do desmame”, caracterizado por perda de peso e surtos de pneumonia.
Critérios para o Desmame: Peso Vivo vs Consumo Diário de Concentrado
O desmame nunca deve ser decidido exclusivamente com base na idade cronológica do bezerro, mas sim por critérios de desenvolvimento fisiológico e consumo de matéria seca sólida. Os dois critérios de ouro recomendados pela pesquisa do Embrapa Gado de Corte são:
Consumo de Concentrado Inicial: O bezerro de raça leiteira está apto para o desmame seguro quando consumiu pelo menos 1,2 kg a 1,5 kg de ração concentrada por dia durante 3 dias consecutivos. Para bezerros de corte de menor porte, o consumo mínimo é de 1,0 kg/dia. Esse nível de ingestão garante que as papilas ruminais já estão produzindo ácidos graxos suficientes para manter a glicemia do animal sem o leite.
Peso Vivo e Dobro do Peso ao Nascer: O bezerro deve ter atingido no mínimo o dobro do seu peso ao nascimento (exemplo: bezerro nascido com 35 kg deve ser desmamado com no mínimo 70 kg a 75 kg).
Métodos de Desmame: Abrupto, Gradual e Lado a Lado
Existem diferentes abordagens para a desmama, devendo o produtor escolher a que minimiza o impacto comportamental:
Desmame Gradual (Recomendado): Reduz-se a oferta de leite pela metade durante 7 a 14 dias antes do corte definitivo. O animal compensa a redução líquida aumentando a ingestão de sólidos sem sofrer queda no ganho de peso.
Desmame Lado a Lado (Lado a Lado / Tabuleta nasal em gado de corte): Na pecuária de corte, o desmame com tabuleta nasal impede que o bezerro mame na vaca, mas permite que ele permaneça junto da mãe no pasto por 7 a 10 dias. Isso reduz dramaticamente a vocalização e o estresse da separação.
Desmame Abrupto (Não Recomendado): O leite é cortado repentinamente de um dia para o outro. Causa forte estresse metabólico, perda de até 3 a 5 kg nos primeiros dias e alta vulnerabilidade a doenças respiratórias.
Prevenção do Estresse do Desmame e Monitoramento do Escore Corporal
Durante a semana do desmame, evite realizar outros procedimentos dolorosos ou estressantes de forma simultânea, tais como descorna, castração ou vacinações pesadas. Mantenha os lotes de bezerros desmamados em piquetes limpos, com sombra, água abundante e cocho de concentrado de fácil acesso. Para entender como tradições e rotinas de manejo do campo afetam a criação, leia nossas curiosidades sobre a vida na fazenda no Brasil.
8. Sanidade Alimentar e Principais Transtornos Digestivos
Alimentação de Bezerros: Guia Completo do Colostro ao Desmame — Imagem: thirsty por scott1346 (BY)
A alimentação de bezerros está intimamente ligada ao status sanitário do rebanho. Falhas na higiene da preparação do leite, oscilações bruscas de temperatura da dieta ou rações contaminadas por fungos são as principais causas de transtornos gastrointestinais, liderando os índices de mortalidade neonatal.
Diarreia Neonatal: Causas Nutricionais vs Infecciosas e Protocolo de Reidratação Oral
A diarreia é o pesadelo de todo bezerreiro. Ela pode ser dividida em duas origens primárias:
Diarreia Nutricional: Ocorre por excesso de leite, oscilação de temperatura (< 35 °C), erro na diluição do sucedâneo (sólidos > 15%) ou alteração brusca no horário das refeições. As fezes costumam ser amareladas e sem odor fétido grave.
Diarreia Infecciosa: Causada por patógenos como Rotavírus, Coronavírus, Escherichia coli, Salmonella spp. e Cryptosporidium parvum. As fezes apresentam cor escura ou esverdeada, presença de muco ou sangue e forte odor fétido.
O pilar fundamental do tratamento da diarreia não é cortar o leite, mas sim a reidratação oral imediata. Deve-se administrar soluções eletrolíticas contendo sódio, potássio, cloreto, glicose e tampão (bicarbonato ou acetato) nos intervalos entre as mamadas. O leite nunca deve ser retirado por mais de 24 horas, pois o bezerro precisa de energia para manter a imunidade e reparar a mucosa intestinal lesada. Informações oficiais sobre defensivos e regulamentação de produtos veterinários podem ser consultadas no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).
Timpanismo Ruminal e Acidose Metabólica Precoce
O timpanismo abomasal ou ruminal em bezerros ocorre pelo acúmulo excessivo de gás resultante da fermentação anormal de leite ou grãos finos. Leite servido frio ou com goteira esofágica disfuncional entra no rúmen e fermenta rapidamente, causando distensão abdominal dolorosa e choque. A acidose ruminal precoce ocorre quando o bezerro consome grãos finamente moídos sem adaptação gradual, baixando o pH ruminal abaixo de 5,5.
Higiene de Utensílios, Mamadeiras e Instalações (Bezerreiros)
A higiene é o desinfetante da nutrição. Todas as mamadeiras, baldes, bicos e sondas devem passar por um protocolo rigoroso de higienização após cada uso:
Enxágue inicial com água morna para remover os restos de leite.
Lavagem com escova e detergente alcalino clorado em água quente (50 °C a 60 °C).
Enxágue com solução ácida desinfetante para eliminar biofilmes minerais e bacterianos.
Secagem de bicos e baldes em suporte elevado e protegido do vento com poeira.
9. Perguntas Frequentes (FAQ)
Qual a quantidade diária de colostro que um bezerro recém-nascido deve receber?
O bezerro recém-nascido deve receber um volume total de colostro equivalente a 10% a 12% do seu peso vivo no primeiro dia de vida. Para um bezerro de 40 kg, isso equivale a 4 a 4,8 litros de colostro. É fundamental que pelo menos a metade desse volume (2 a 2,5 litros) seja administrada nas primeiras 2 a 4 horas após o nascimento, quando a absorção intestinal de imunoglobulinas IgG é máxima.
Quando devo começar a fornecer ração para bezerros?
A ração para bezerros (concentrado inicial) deve ser disponibilizada no cocho a partir do 3º ao 5º dia de vida. Embora no início o bezerro apenas lamba pequenas quantidades (50 g a 100 g/dia), essa ingestão precoce é indispensável para iniciar a fermentação ruminal, a produção de ácido butírico e o desenvolvimento das papilas do rúmen.
É melhor usar leite integral ou sucedâneo lácteo na alimentação de bezerros?
Ambas as opções são eficientes se manejadas corretamente. O leite integral é o alimento natural mais completo e de alta digestibilidade. No entanto, sucedâneos lácteos comerciais de alta qualidade (com no mínimo 20% de proteína bruta láctea e 16% de extrato etéreo) são opções excelentes, oferecendo maior biossegurança sanitária (livres de patógenos como mastite) e custo por litro frequentemente inferior ao do leite comercializado.
Como saber se o bezerro está pronto para o desmame?
O bezerro está pronto para o desmame quando atinge um consumo constante de concentrado inicial de pelo menos 1,2 kg a 1,5 kg/dia por 3 dias consecutivos (em raças leiteiras) ou 1,0 kg/dia (em raças de corte), apresentando bom escore corporal e tendo no mínimo dobrado seu peso ao nascer. O desmame baseado no consumo de sólidos evita o ganho negativo de peso pós-desmama.
Por que a água é fundamental mesmo quando o bezerro toma leite?
A água do leite não vai para o rúmen, mas sim diretamente para o abomaso através da goteira esofágica. Para que os micróbios ruminais consigam fermentar a ração para bezerros e desenvolver o órgão, é obrigatório haver água potável livre dentro do rúmen. Sem água no bebedouro, o consumo de concentrado cai drasticamente e o desenvolvimento ruminal é atrasado.
Qual é a proteína bruta ideal para o concentrado inicial do bezerro?
O concentrado inicial ideal deve possuir de 18% a 22% de Proteína Bruta (PB) na matéria seca e 75% a 80% de NDT (energia). Deve ser formulado com grãos peletizados ou laminados grossos, livres de poeira e com boa palatabilidade para garantir consumo voluntário elevado.
Como evitar diarreias provocadas por erros na alimentação de bezerros?
Para evitar diarreias alimentares, mantenha horários rígidos de aleitamento, forneça o leite ou sucedâneo sempre na temperatura de 38 °C a 40 °C, evite mudanças bruscas na marca do sucedâneo ou na dieta, e higienize criteriosamente mamadeiras e baldes após cada refeição.
10. Conclusão
A alimentação de bezerros é o alicerce insubstituível para quem busca construir um rebanho bovino produtivo, fértil e rentável. Da atenção cirúrgica prestada durante as primeiras horas de vida com o manejo de colostro bezerro até a transição cuidadosa para o concentrado inicial e suplementação de nutrição mineral bezerros, cada escolha tomada no bezerreiro repercute diretamente na vida adulta do animal.
Adotar protocolos científicos de aleitamento, testar a qualidade do colostro com refratômetro de Brix, oferecer água limpa e acelerar o desenvolvimento ruminal são investimentos estratégicos que pagam dividendos expressivos na forma de menor mortalidade, maior peso ao desmame e vacas de leite mais produtivas no futuro.
Se você deseja elevar os índices zootécnicos da sua propriedade e modernizar o manejo nutricional da sua criação, comece hoje mesmo a aplicar essas diretrizes técnicas. Avalie a rotina do seu bezerreiro, capacite sua equipe de campeiros e selecione insumos de nutricionais de alta performance comercializados por parceiros de confiança.
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