Saúde e Doenças de Bezerros: Prevenção, Sintomas e Tratamentos

Saúde e Doenças de Bezerros: Guia Completo de Prevenção, Sintomas e Tratamentos

A fase de aleitamento e recria inicial representa o período mais crítico e vulnerável na vida dos bovinos. As doenças de bezerros são responsáveis por expressivas perdas econômicas na pecuária brasileira, decorrentes não apenas do óbito direto dos animais, mas também dos custos elevados com medicamentos veterinários, atraso no desenvolvimento ponderal, perda de produtividade futura na fase adulta e descarte precoce de matrizes e reprodutores. Garantir um status sanitário impecável nos primeiros meses de vida é a base indispensável para a eficiência de qualquer sistema produtivo, seja ele voltado para a pecuária de corte ou de leite.

Atendimento de saúde animal de bezerros no campo
Saúde e Doenças de Bezerros: Prevenção, Sintomas e Tratamentos — Imagem: Iowa Agribusiness Development Team backs veterinary programs for Kuchis [Image 3 of 4] por DVIDSHUB (BY)

Durante as primeiras semanas pós-nascimento, o sistema imunológico do bezerro é extremamente dependente da transferência passiva de imunoglobulinas através do colostro. Falhas nesse processo, somadas a instalações inadequadas, contaminação ambiental e estresse térmico, abrem portas para uma série de enfermidades complexas. Entre os principais desafios enfrentados por produtores e médicos veterinários no campo estão a diarreia em bezerros, a pneumonia em bezerros e as infecções umbilicais, que juntas respondem por mais de 80% das ocorrências clínicas e mortes na fase neonatal.

Investir no manejo sanitário preventivo e na correta nutrição da gestante e do recém-nascido é a estratégia mais rentável para o pecuarista. Compreender os agentes causadores, reconhecer precocemente os sinais clínicos e aplicar protocolos terapêuticos validados cientificamente transformam o desempenho da fazenda. Para entender o papel estratégico que a pecuária desempenha no cenário macroeconômico, vale conferir nosso artigo sobre como o setor impulsiona o país em Explorando o Agronegócio Brasileiro: Um Guia Completo do Maior Setor da Economia Nacional.

Neste guia detalhado e definitivo, abordaremos passo a passo os cuidados fundamentais no nascimento, a colostragem perfeita, os sintomas e tratamentos das principais enfermidades, o calendário de vacinação atualizado, além de tabelas práticas para consulta no dia a dia da fazenda. Acompanhe a leitura e saiba como proteger seu rebanho e maximizar a lucratividade da sua propriedade.

Índice

1. O Impacto Econômico e Sanitário das Doenças de Bezerros na Pecuária

A taxa de mortalidade de bezerros até o desmame no Brasil ainda varia historicamente entre 5% e 15% em propriedades comerciais, podendo ultrapassar 20% em fazendas com falhas graves de manejo. O impacto econômico dessas perdas vai muito além do valor nominal do animal morto. Estudos desenvolvidos pela Embrapa Gado de Corte demonstraram que bezerros que sofrem com episódios repetidos de diarreia ou pneumonia durante a fase de aleitamento apresentam uma redução no ganho de peso diário (GPD) de até 200 gramas por dia, prejuízo que se estende por toda a vida produtiva do animal.

Prejuízos Diretos e Indiretos na Criação

Os prejuízos na fase de cria podem ser categorizados em custos diretos e indiretos:

  • Custos Diretos: Gastos com medicamentos (antibióticos, anti-inflamatórios, reidratantes, vermífugos), honorários veterinários, descarte de leite contaminado por resíduos de medicamentos e mão de obra intensiva para atendimento dos animais doentes. O custo médio de tratamento de um bezerro com pneumonia severa pode oscilar entre R$ 80,00 e R$ 250,00 por episódio.
  • Custos Indiretos: Aumento do intervalo entre partos da vaca matriz (devido ao estresse), perda de peso ao desmame (animais desmamados com até 30 kg a menos), atraso na idade à primeira concepção das novilhas (que pode passar de 24 para 36 meses) e menor produção de leite na primeira lactação em vacas leiteiras.

A Importância da Sanidade Animal Preventiva

Manter a sanidade animal bezerros em alto padrão exige a transição da medicina veterinária curativa para a medicina veterinária preventiva. A prevenção custa uma fração do valor gasto em tratamento e preserva o potencial genético do rebanho. A adoção de tecnologias modernas de monitoramento e manejo nutricional também tem transformado a gestão de bezerras e bezerros. Para entender como a automação e os sensores revolucionaram a lida no campo, leia mais em nosso artigo detalhado sobre Pecuária de Precisão: Como a Tecnologia Está Revolucionando a Criação de Gado no Brasil.

Figura 1: Bezerros saudáveis e bem colostrados apresentam excelente ganho de peso e imunidade fortalecida.

2. Protocolo Crítico de Nascimento: Colostragem e Cura do Umbigo

As primeiras 24 horas de vida de um bezerro definem sua sobrevivência e desempenho imunológico para o resto da vida. Como os bovinos possuem uma placenta do tipo epiteliocorial, não ocorre transferência de anticorpos (imunoglobulinas IgG, IgM e IgA) da mãe para o feto durante a gestação. Portanto, o bezerro nasce totalmente desprovido de imunidade ativa (agalactoglobulinêmico).

A Colostragem Perfeita: Regra dos 4 “Qs”

A colostragem é a principal ferramenta de prevenção contra doenças de bezerros. Para garantir a transferência efetiva de imunidade passiva, o produtor deve seguir rigorosamente a regra dos quatro pilares:

  1. Qualidade: O colostro deve conter concentração de imunoglobulinas superior a 50 g de IgG por litro. Isso pode ser mensurado no campo com um brixômetro óptico ou digital (leitura Brix superior a 22%) ou com um colostrômetro (densidade acima de 1,050 g/mL). Colostro de vacas primíparas ou com período de transição inadequado costuma ter menor qualidade.
  2. Quantidade: O bezerro deve consumir o equivalente a 10% a 12% do seu peso vivo em colostro de alta qualidade nas primeiras 6 horas pós-nascimento. Para um bezerro de 40 kg, isso representa 4 litros de colostro.
  3. Quickness (Rapidez): A capacidade do intestino do bezerro de absorver macromoléculas de imunoglobulinas intactas (por pinocitose) decai rapidamente após o parto. Às 6 horas de vida, a absorção cai pela metade; às 12 horas, atinge menos de 25%; e fecha-se completamente (fechamento intestinal) entre 24 e 36 horas.
  4. Quantidade de Higiene (Limpeza): O colostro deve ser coletado e fornecido em utensílios higienizados e sanitizados. Contaminação bacteriana (especialmente por coliformes) bloqueia os receptores intestinais e impede a absorção das imunoglobulinas, além de introduzir patógenos precocemente no trato digestivo.

Cura e Imersão do Cordão Umbilical

O cordão umbilical rompido é uma via aberta e direta para a entrada de bactérias causadoras de infecções graves, como sepsis, peritonite, artrite séptica (“junta presa”) e abscesso hepático. A cura do umbigo deve ser realizada imediatamente após o nascimento e repetida diariamente durante 3 a 5 dias consecutivos.

  • Produto recomendado: Solução alcoólica de iodo a 7% a 10% ou tintura de iodo com ação antisséptica e dessecação rápida.
  • Técnica correta: Mergulhar todo o coto umbilical em um copo sem retorno contendo o iodo por pelo menos 10 a 15 segundos, garantindo que o líquido penetre na cavidade interna do cordão. Evitar o uso de sprays que contêm apenas repelente sem poder desinfetante suficiente para secar o cordão.
  • Prevenção de Bicheiras: Aplicar mata-bicheira (larvicida) ao redor do umbigo (na pele externa), impedindo que moscas como a Cochliomyia hominivorax depositem ovos e causem miíases dolorosas e debilitantes.

3. Diarreia em Bezerros: Causas, Sintomas e Tratamentos Eficazes

Atendimento de saúde animal de bezerros no campo
Saúde e Doenças de Bezerros: Prevenção, Sintomas e Tratamentos — Imagem: Iowa Agribusiness Development Team backs veterinary programs for Kuchis [Image 3 of 4] por DVIDSHUB (BY)

A diarreia em bezerros é a síndrome clínica de maior prevalência nos primeiros 30 dias de vida do animal. Ela causa rápida perda de água, sódio, potássio e bicarbonato, levando o animal à desidratação severa, acidose metabólica, choque hipovolêmico e morte em questão de poucas horas se não for contida a tempo.

Agentes Causadores da Diarreia Neonatal

A etiologia da diarreia pode ser viral, bacteriana, protozoária ou nutricional, ocorrendo comumente em infecções mistas:

  • Rotavírus Bovino (Grupo A): Causa destruição dos enterócitos nas pontas das vilosidades do intestino delgado, resultando em má absorção e diarreia aquosa amarelada. Afeta principalmente bezerros entre 5 e 14 dias de idade.
  • Coronavírus Bovino: Provoca lesões mais severas tanto no intestino delgado quanto no cólon, causando diarreia com muco e estrias de sangue, além de febre e depressão marcante. Frequente entre 7 e 30 dias de vida.
  • Escherichia coli Enterotoxigênica (ETEC – K99/F41): Acomete bezerros nos primeiros 3 a 5 dias de vida. A bactéria produz enterotoxinas que estimulam a secreção maciça de fluidos para a luz intestinal, gerando diarreia profusa, aquosa e hiperaguda.
  • Cryptosporidium parvum: Protozoário zoonótico extremamente resistente no ambiente. Causa diarreia persistente, febril, de cor amarelada a acinzentada, afetando bezerros entre a 1ª e a 3ª semana de vida. O tratamento exige higiene rigorosa e halofuginona ou azitromicina sob orientação veterinária.
  • Salmonella enterica (serovares Typhimurium e Dublin): Causa diarreia invasiva, fétida, com fibrina e sangue (enterite pseudomembranosa), acompanhada de septicemia, febre alta (>40°C), pneumonia associada e alta taxa de letalidade. Comum a partir da 2ª semana até o desmame.
  • Diarreia Nutricional: Ocasionada por variações bruscas na temperatura do leite, fornecimento de leite azedo, excesso de volume por refeição ou substitutos lácteos (sucedâneos) de baixa qualidade rica em amido de difícil digestão.

Graus de Desidratação e Sintomas Clínicos

A avaliação precisa do grau de desidratação é fundamental para definir a via de reidratação (oral vs. intravenosa):

  • Desidratação Leve (5% a 6%): Bezerro alerta, turgor cutâneo (prega de pele no pescoço) volta ao normal em menos de 2 segundos. Mucosas úmidas. Reflexo de sucção presente.
  • Desidratação Moderada (7% a 9%): Bezerro deitado, desanimado, olhos levemente fundos (enoftalmia de 2 a 4 mm), prega de pele demora de 2 a 5 segundos para retornar. Sucção fraca. Exige reidratação oral imediata associada a fluidoterapia se necessário.
  • Desidratação Severa (10% a 12%+): Bezerro em decúbito lateral, comatoso, extremidades frias, olhos muito fundos (>6 mm), prega de pele persiste por mais de 6 segundos, mucosas pálidas ou cianóticas. Necessita de fluidoterapia intravenosa emergencial com Ringer Lactato ou Solução Fisiológica enriquecida com Bicarbonato de Sódio a 1,3%.

Protocolo Terapêutico e Recomposição Hidroeletrolítica

O pilar fundamental no tratamento da diarreia não é o uso imediato de antibióticos, mas sim a reidratação contínua. NUNCA se deve interromper o fornecimento de leite, pois a lactose e a energia são essenciais para evitar a hipoglicemia e a perda muscular rápida.

  1. Fornecimento de Solução Eletrolítica Oral: Administrar de 2 a 4 litros de solução de reidratação oral (contendo sódio, potássio, cloreto, glicose e agentes tamponantes como acetato ou citrato) em horários intercalados com o leite (intervalo mínimo de 2 horas entre o leite e o reidratante).
  2. Uso Consciente de Antimicrobianos: Reservar o uso de antibióticos sistêmicos (ex: Sulfametoxazol + Trimetoprim, Enrofloxacina, Ceftiofur ou Ampicilina) para casos em que o bezerro apresenta febre (>39,5°C), apatia severa, sangue nas fezes ou suspeita de septicemia por Salmonella ou E. coli.
  3. Anti-inflamatórios Não Esteroidais (AINEs): O uso de Meloxicam (0,5 mg/kg) ou Flunixin Meglumine (1,1 a 2,2 mg/kg) reduz a inflamação intestinal, diminui a dor, melhora o apetite e combate os efeitos das endotoxinas bacterianas.
  4. Probióticos e Protetores de Mucosa: O uso de leveduras (Saccharomyces cerevisiae) e bactérias láticas auxilia na restauração rápida da microbiota intestinal saudável.
Figura 2: A reidratação oral intercalada com a amamentação é a conduta mais eficaz para curar a diarreia em bezerros.

4. Pneumonia em Bezerros (Complexo Respiratório Bovino)

A pneumonia em bezerros é a segunda causa mais frequente de mortalidade neonatal e a principal causa de perdas econômicas em bezerras de leite alojadas em sistemas coletivos e bezerros de corte em confinamento. Conhecida tecnicamente como Complexo Respiratório Bovino (CRB), a doença possui etiologia multifatorial, combinando estresse, fatores ambientais e agentes infecciosos.

Agentes Etiológicos do CRB

A pneumonia geralmente inicia-se por infecções virais que danificam o epitélio ciliado do trato respiratório, permitindo a colonização secundária por bactérias oportunistas da microbiota normal do trato superior:

  • Agentes Virais Primários: Vírus da Rinotraqueíte Infecciosa Bovina (IBR / BoHV-1), Vírus da Diarreia Viral Bovina (BVDV), Vírus Sincicial Respiratório Bovino (BRSV) e Vírus da Parainfluenza-3 (PI-3).
  • Agentes Bacterianos Secundários: Mannheimia haemolytica (produtora de leucotoxina que destrói alvéolos), Pasteurella multocida, Histophilus somni e Mycoplasma bovis (causador de pneumonia crônica, otite e artrite).

Sinais Clínicos e Diagnóstico Precoce pelo Escore Respiratório

Identificar os sinais de pneumonia logo no início é crucial para evitar lesões pulmonares irreversíveis (consolidação pulmonar). Recomenda-se utilizar o sistema de pontuação respiratória de Wisconsin (escore clínico), avaliando:

  • Temperatura retal: Febre acima de 39,5°C (podendo atingir 40,5°C a 41,0°C).
  • Tosse: Tosse induzida ou espontânea, seca e dolorosa na fase inicial, tornando-se úmida e produtiva na fase avançada.
  • Secreção nasal e ocular: Evolução de secreção serosa (transparente) para muco-purulenta (esbranquiçada ou amarelada espessa).
  • Padrão Respiratório: Polipneia (respiração acelerada), dispneia (dificuldade para respirar), movimento abdominal acentuado e postura de pescoço estendido com narinas dilatadas.
  • Auscultação Pulmonar: Presença de estertores crepitantes, sibilos e áreas de silêncio audível (que indicam consolidação e hepatização de lobos pulmonares crânio-ventrais).

Tratamento e Protocolo Antibiótico

O tratamento da pneumonia bacteriana deve ser instituído o mais rápido possível com antibióticos de alta capacidade de concentração no tecido pulmonar e longa ação:

  • Princípios Ativos Indicados: Florfenicol (40 mg/kg via subcutânea em dose única ou 20 mg/kg IM com intervalo de 48h), Tulatromicina (2,5 mg/kg SC em dose única), Enrofloxacina (7,5 a 12,5 mg/kg SC em dose única ou diária), Ceftiofur (1,1 a 2,2 mg/kg IM/SC) ou Tilmicosina.
  • Uso de Anti-inflamatórios: A associação com Flunixin Meglumine ou Meloxicam é indispensável para debelar a febre rapidamente, reduzir a exsudação nos alvéolos e mitigar a dor, permitindo que o bezerro volte a se alimentar.
Figura 3: A auscultação pulmonar periódica permite diagnosticar pneumonia bacteriana antes do surgimento de lesões crônicas irreversíveis.

5. Verminose em Bezerros e Parasitoses Internas e Externas

A verminose em bezerros e as infecções por ectoparasitas representam vilões silenciosos na criação de gado. Ao contrário da diarreia aguda que mata rapidamente, a verminose crônica consome silenciosamente as reservas do animal, causando anemia, hipoproteinemia, edema submandibular (“papo inchado”), retardo no crescimento e susceptibilidade a outras doenças de bezerros.

Helmintos Gastrointestinais e Pulmonares

Os bezerros começam a se infectar com larvas infectantes (L3) de nematódeos à medida que iniciam a pastejo a partir da 3ª ou 4ª semana de vida:

  • Haemonchus placei: Parasita do abomaso que se alimenta de sangue. Causa anemia severa, mucosas hipocoradas (pálidas), fraqueza extrema e ascite/edema submandibular sem necessariamente causar diarreia profusa.
  • Cooperia punctata e Cooperia pectinata: Parasitam o intestino delgado. São extremamente prevalentes e causam atrofia das vilosidades, diarreia profusa, pelos arrepiados e opacos, e marcada perda de peso.
  • Oesophagostomum radiatum: Causa nódulos na parede do intestino grosso, prejudicando a absorção de nutrientes e água.
  • Dictyocaulus viviparus: Vermiforme pulmonar que habita traqueia e brônquios, provocando bronquite parasitar, tosse crônica e dispneia em bezerros de pastagem.

Tristeza Parasitária Bovina (TPB)

A Tristeza Parasitária Bovina é um complexo de doenças causadas por protozoários e rickettsias transmitidos principalmente pelo carrapato dos bovinos (Rhipicephalus microplus) ou por moscas hematófagas e agulhas contaminadas:

  • Babesiose (Babesia bovis e Babesia bigemina): Protozoários intraeritrocitários. Causam destruição massiva de hemácias, febre alta (>40,5°C), anemia, icterícia (mucosas amareladas) e, no caso da B. bovis, sinais neurológicos (andamento cambaleante, pedalagem, agressividade) devido à sequestração de hemácias nos capilares cerebrais. A urina pode apresentar cor de café (hemoglobinúria). Tratamento: Diaceturato de Diminazeno (3,5 mg/kg IM).
  • Anaplasmose (Anaplasma marginale): Rickettsia contagiante que infecta as hemácias. Provoca anemia severa, febre, icterícia acentuada, prostração, constipação intestinal e ausência de hemoglobinúria (urina sem sangue visível). Tratamento: Oxitetraciclina de longa ação (20 mg/kg IM) ou Imidocarb (Dipropionato de Imidocarb na dose de 2,5 mg/kg para Anaplasmose e 1,2 mg/kg para Babesiose).

Muitas curiosidades interessantes cercam o comportamento e a fisiologia dos animais rurais. Para descobrir fatos surpreendentes sobre os animais de fazenda, visite nosso artigo sobre Curiosidades sobre Animais de Fazenda: Comportamentos e Fatos Surpreendentes.

6. Outras Enfermidades Comuns: Onfalite, Tristeza Parasitária e Coccidiose

Além da diarreia e da pneumonia, outras condições clínicas afetam frequentemente o bezerro no ambiente de fazenda:

Onfalite, Omfaloflebite e Abscessos de Umbigo

Quando a cura do umbigo falha, bactérias patogênicas colonizam as estruturas umbilicais (veia umbilical, artérias umbilicais e úraco). Isso gera quadros de:

  • Onfalite: Inflamação e infecção restritas ao anel e coto umbilical externo, manifestando-se com inchaço, calor local, dor e secreção purulenta fétida.
  • Omfaloflebite e Omfaloarterite: A infecção ascende pela veia umbilical até o fígado (causando abscessos hepáticos) ou pelas artérias até os rins e bexiga. O tratamento requer antibioticoterapia prolongada (ex: Penicilina procaína ou Ceftiofur por 7 a 14 dias) e, em casos refratários, ressecção cirúrgica do cordão umbilical infectado.

Coccidiose Bovina (Eimeriose)

Causada por protozoários do gênero Eimeria (com destaque para Eimeria zuernii e Eimeria bovis), a coccidiose acomete geralmente bezerros a partir da 3ª ou 4ª semana de vida até os 6 meses, especialmente em situações de superlotação, estresse pós-desmame ou desmame precoce.

Os sintomas clássicos incluem diarreia escura com presença de muco e estrias de sangue vivo, tenesmo (esforço doloroso e contínuo para defecar, levando o bezerro a projetar a cauda), desidratação, pelagem opaca e acentuada perda de peso. O tratamento e a prevenção são feitos com anticoccidianos como Toltrazuril (20 mg/kg via oral em dose única) ou Diclazuril, além do uso profilático de monensina sódica ou lasalocida na ração.

Figura 4: A inspeção palpatória diária do umbigo previne onfalites e abscessos hepáticos graves.

7. Calendário Estruturado de Vacinação de Bezerros e Manejo Preventivo

O sucesso do programa de vacinação de bezerros baseia-se em dois momentos chave: o estímulo à imunidade da vaca no terço final da gestação (vacinação pré-parto) e o esquema vacinal direto do bezerro a partir dos primeiros meses de vida.

Vacinação Pré-Parto das Matrizes (Vacina de Diarreia Neonatal)

Para transferir uma quantidade maciça de anticorpos específicos pelo colostro, as vacas gestantes e novilhas pesadas devem ser vacinadas entre 60 e 30 dias antes da data provável do parto contra:

  • Rotavírus Bovino
  • Coronavírus Bovino
  • Escherichia coli (cepas K99/F41)
  • Salmonella Typhimurium e Dublin
  • Clostridium perfringens tipo C e D

Esquema Vacinal Recomendado para Bezerros

A seguir, apresentamos o cronograma sanitário padrão para bezerros de corte e leite, conforme diretrizes técnicas da Embrapa Gado de Leite e normativas do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA):

  1. Brucelose (Obrigatória para Fêmeas): Vacinação de bezerros fêmeas entre 3 e 8 meses de idade com a vacina B19 (amostra atenuada, exige marcação com ferro em brasa no lado esquerdo da face com o final do ano vigente) ou com a vacina RB51 (não induz anticorpos aglutinantes, recomendada para rebanhos livres ou fêmeas acima dessa faixa sob orientação oficial). Deve ser aplicada exclusivamente por médico veterinário cadastrado.
  2. Clostridioses (Carbunculo Sintomático, Gangrena Gasosa, Botulismo, Tétano, Enterotoxemia): Primeira dose aplicada aos 4 meses de idade (ou 2 meses se a mãe não foi vacinada no pré-parto), com reforço obrigatório 30 dias após a primeira dose. Revacinação anual.
  3. Doenças Respiratórias e Reprodutivas (IBR / BVD / Leptospirose / BRSV / Pasteurelose): Primeira dose aos 3 a 4 meses de idade, com booster (reforço) 30 dias depois. Revacinação semestral ou anual.
  4. Raiva dos Herbívoros: Em regiões endêmicas com presença de morcegos hematófagos (Desmodus rotundus), aplicar a 1ª dose aos 3 meses e reforço 30 dias após. Revacinação anual.
  5. Febre Aftosa: Seguir rigorosamente o calendário estabelecido pelo órgão de defesa sanitária animal do seu estado (nos estados onde a vacinação ainda é mantida pelo PNFA).

Para conhecer histórias cativantes e peculiaridades da vida rural no país, não deixe de ler Curiosidades da Fazenda: Fatos Surpreendentes sobre a Vida no Campo Brasileiro.

8. Tabelas Comparativas: Doenças, Sintomas, Tratamentos e Vacinas

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Saúde e Doenças de Bezerros: Prevenção, Sintomas e Tratamentos — Imagem: Iowa Agribusiness Development Team backs veterinary programs for Kuchis [Image 3 of 4] por DVIDSHUB (BY)

Para facilitar a consulta rápida no dia a dia da fazenda, reunimos abaixo duas tabelas técnicas completas com os principais dados de sanidade e vacinação de bezerros.

Tabela 1: Principais Doenças de Bezerros, Sintomas, Tratamentos e Estimativa de Custos

Doença / Condição Principais Agentes Sintomas Característicos Protocolo de Tratamento Custo Estimado / Impacto
Diarreia Neonatal Infecciosa Rotavírus, Coronavírus, E. coli K99, Cryptosporidium Fezes líquidas (amarelas, brancas ou com sangue), desidratação, olhos fundos, fraqueza, febre. Reidratação oral (2-4L/dia), anti-inflamatório (Meloxicam), antibiótico sistêmico se houver febre, probióticos. R$ 40,00 – R$ 120,00 por animal em medicamentos + perda de até 15 kg ao desmame.
Pneumonia (Complexo Respiratório) Pasteurella, Mannheimia, IBR, BVD, BRSV Febre (>39,5°C), secreção nasal purulenta, tosse, respiração curta e difícil, apatia, menor ingestão de leite. Florfenicol (40mg/kg SC) ou Tulatromicina, associados a Flunixin Meglumine ou Meloxicam por 3 a 5 dias. R$ 90,00 – R$ 260,00 por animal em antibióticos de ponta + risco de lesão pulmonar irreversível.
Onfalite / Infecção de Umbigo Staphylococcus, Streptococcus, E. coli Coto umbilical inchado, doloroso, exsudato purulento fétido, febre, articulações inchadas (artrite). Higienização local com iodo 10%, drenagem de exsudato, Penicilina Benzatínica ou Ceftiofur por 7 dias. R$ 30,00 – R$ 90,00 + risco de descarte do bezerro por artrite purulenta.
Tristeza Parasitária Bovina (TPB) Anaplasma marginale, Babesia bovis / bigemina Febre alta, anemia (mucosas pálidas), icterícia (gengiva/olhos amarelos), urina escura (Babesia), prostração. Diaceturato de Diminazeno (3,5 mg/kg) para Babesia; Oxitetraciclina L.A. ou Imidocarb para Anaplasma. Vitamina B12 e ferro. R$ 60,00 – R$ 180,00 por tratamento + alta taxa de mortalidade se diagnosticado tardiamente.
Coccidiose (Eimeriose) Eimeria zuernii, Eimeria bovis Diarreia escura/sanguinolenta em bezerros > 3 semanas, tenesmo (esforço para defecar), desidratação, magreza. Toltrazuril (20 mg/kg via oral em dose única) ou Diclazuril, associado a reidratação e sulfas. R$ 25,00 – R$ 65,00 por animal + perda substancial no ganho de peso pós-desmame.
Verminose Gastrointestinal Haemonchus, Cooperia, Oesophagostomum Pelagem opaca, diarreia crônica, papo inchado (edema submandibular), atraso severo no crescimento. Vermífugos de amplo espectro: Ivermectina 3,15%, Doramectina 1%, Levamisol ou Albendazol. R$ 5,00 – R$ 20,00 por dose de vermífugo (baixo custo, alto retorno sobre investimento).

Tabela 2: Calendário Prático de Vacinação e Manejo de Bezerros

Idade do Animal Vacina / Procedimento Via e Dose Objetivo Sanitário
Nascimento (Dia 1) Colostragem de alta qualidade (10% PV em 6h) + Cura de Umbigo com iodo 10%. Oral (leite/colostro) / Tópico no umbigo Transferência de imunidade passiva e prevenção de infecções umbilicais e septicemia.
15 a 30 dias 1ª Vermifugação (se necessário) + Aplicação de Toltrazuril (preventivo de coccidiose). Oral / Subcutânea conforme indicação do produto Controle precoce de Eimeria e helmintos em piquetes com alta taxa de contaminação.
3 Meses Vacina contra Raiva (em áreas endêmicas) + 1ª Dose da Vacina Respiratória (IBR/BVD/BRSV). Subcutânea ou Intramuscular (2 mL a 5 mL) Proteção primária contra o Complexo Respiratório Bovino e vírus rábico.
3 a 8 Meses (Fêmeas) Vacina contra Brucelose (Amostra B19 ou RB51) – Obrigatória para fêmeas. Subcutânea (2 mL) – Exclusivo por Veterinário Cadastrado Controle da Brucelose bovina, erradicação de zoonose e conformidade com o PNCEBT.
4 Meses 1ª Dose da Vacina Polivalente de Clostridioses (Carbunculo, Botulismo, Tétano). Subcutânea (3 mL a 5 mL conforme fabricante) Prevenção de mortes súbitas provocadas por neurotoxinas e enterotoxinas clostridiais.
5 Meses (30 dias após) Reforço (Booster) da Vacina de Clostridioses e Doenças Respiratórias. Subcutânea ou Intramuscular Consolidação da imunidade humoral duradoura e memória imunológica.
Desmame (6 a 8 Meses) Vermifugação estratégica de desmame + Revacinação anual de matrizes e garrotes. Subcutânea ou Pour-on Redução do estresse do desmame e garantia de transição saudável para a fase de recria.
Figura 5: A manutenção rigorosa da cadeia de frio (2°C a 8°C) é indispensável para preservar a eficácia das vacinas.

9. Instalações, Ambiência e Biossegurança no Bezerreiro

Nenhum protocolo vacinal ou tratamento medicamentoso consegue compensar um ambiente insalubre, úmido e superlotado. A engenharia das instalações e a rotina de limpeza do bezerreiro desempenham um papel decisivo na contenção das doenças de bezerros.

Sistemas de Alojamento e Suas Vantagens

  • Bezerreiro Argentina (Piquetes Individuais Móveis): Os bezerros ficam presos por uma corrente deslizando em um cabo de aço estendido no pasto, recebendo uma casinha individual para abrigo da chuva e do sol. A casinha e a estaca são movidas diariamente para uma área limpa de pasto, eliminando o acúmulo de dejetos. Excelente redução da incidência de diarreias.
  • Bezerreiro Tropical (Casinhas Individuais de Madeira ou Plástico): Casinhas individuais dispostas em área sombreada e bem drenada. Permite fácil higienização, isolamento entre os animais durante as primeiras semanas e controle individual do consumo de leite e ração.
  • Instalações Coletivas com Comedouro Automático (Aleitamento Coletivo): Utilizado em propriedades de grande porte. Requer ventilação forçada eficiente, camas profundas de maravalha ou palha de arroz trocadas com alta frequência e rigoroso monitoramento por sensores para evitar surtos de pneumonia.

Higienização de Utensílios de Alimentação

Baldes, mamadeiras, bicos de borracha e sondas esofágicas devem ser lavados imediatamente após cada uso com água morna, detergente neutro e sanitizados com solução de hipoclorito de sódio ou amônia quaternária. Utensílios sujos de leite formam um biofilme bacteriano rico em E. coli e Salmonella, infectando o bezerro a cada mamada.

Medidas de Biossegurança

  • Manter os bezerros recém-nascidos isolados de bovinos adultos e de animais desmamados.
  • Agrupar os bezerros por lote de idade com diferença máxima de 14 a 21 dias entre o mais velho e o mais novo do lote.
  • Estabelecer um piquete ou baia de quarentena/isolamento para animais doentes, evitando que transmitam patógenos respiratórios ou entéricos para os animais sadios.
  • Restringir o acesso de veículos externos e visitantes desinfetando calçados em pedilúvios na entrada do bezerreiro.

10. FAQ – Perguntas Frequentes sobre Saúde e Doenças de Bezerros

1. Qual é a causa mais comum de morte em bezerros recém-nascidos?

A principal causa de morte nas primeiras duas a três semanas de vida é a diarreia neonatal bacteriana e viral associada à desidratação severa e choque hipovolêmico, quase sempre decorrente da falha de colostragem (ingestão insuficiente de colostro de boa qualidade nas primeiras 6 horas).

2. Como diferenciar se a diarreia do bezerro é de origem bacteriana ou viral?

Diarreias virais (Rotavírus/Coronavírus) costumam apresentar consistência líquida amarelada ou esbranquiçada sem odor pútrido pronunciado, acometendo lotes inteiros entre 5 e 14 dias de idade. Diarreias bacterianas (como Salmonella) frequentemente vêm acompanhadas de febre alta (>40°C), presença de sangue e muco nas fezes, odor fétido marcante e prostração severa. Contudo, infecções mistas são extremamente comuns no campo, exigindo diagnóstico laboratorial (PCR ou cultura) para confirmação exata.

3. Qual a dosagem e o tempo ideal de colostragem para o recém-nascido?

O bezerro deve receber 10% do seu peso corporal (por exemplo, 4 litros para um bezerro de 40 kg) de colostro de alta qualidade (Brix > 22%), divididos em duas mamadas, sendo a primeira obrigatoriamente administrada nas primeiras 2 a 6 horas após o parto. Após 12 a 24 horas, a permeabilidade intestinal diminui drasticamente, reduzindo a absorção de imunoglobulinas.

4. Fêmeas bovinas vacinadas com a vacina B19 precisam ser vacinadas novamente contra brucelose?

Não. A vacina B19 é administrada em dose única em fêmeas entre 3 e 8 meses de idade e confere imunidade duradoura por toda a vida reprodutiva do animal. Lembramos que a vacinação com B19 é obrigatória e restrita a fêmeas, exigindo marcação com ferro em brasa no lado esquerdo da face. Alternativamente, pode-se utilizar a vacina RB51 em dose única, que não induz a formação de anticorpos aglutinantes que interferem nos testes de diagnóstico de rotina.

5. Como deve ser feito o tratamento da infecção de umbigo (onfalite)?

O tratamento da onfalite envolve a limpeza local rigorosa com solução antisséptica (clorexidina a 2% ou iodo), drenagem cuidadosa de eventual exsudato purulento represado e a administração de antibióticos sistêmicos de amplo espectro (como Penicilina Benzatínica, Ceftiofur ou Oxitetraciclina) sob orientação de um médico veterinário por um período de 7 a 14 dias. Casos com abscessos internos profundos podem demandar correção cirúrgica.

6. Quando devo realizar a primeira vermifugação em bezerros?

A primeira vermifugação deve ocorrer por volta dos 30 a 60 dias de idade em sistemas extensivos ou semiextensivos onde o bezerro já tem acesso à pastagem. Em rebanhos com histórico de alta infestação por Eimeria (coccidiose), recomenda-se administrar um anticoccidiano (como o Toltrazuril) preventivamente entre os 15 e 30 dias de vida.

7. Quais são os sinais iniciais para identificar pneumonia em bezerros?

Os primeiros sinais observáveis são respiração acelerada (polipneia), abaixamento de orelhas, febre acima de 39,5°C, secreção nasal serosa ou transparente, diminuição do apetite durante a mamada e tosse seca ocasional. Identificar e tratar a pneumonia nesta fase inicial impede o comprometimento definitivo da capacidade pulmonar do animal.

8. Posso cortar o leite de um bezerro que está com diarreia?

Não! Este é um erro gravíssimo e ultrapassado. O bezerro com diarreia precisa da energia, da lactose e dos nutrientes do leite para continuar lutando contra a infecção e não morrer de hipoglicemia e debilidade nutricional. O leite deve continuar sendo fornecido normalmente, enquanto a solução eletrolítica de reidratação oral deve ser oferecida nos intervalos entre as mamadas (com pelo menos 2 horas de diferença).

11. Conclusão

A sanidade e a saúde dos bezerros representam o alicerce financeiro de qualquer propriedade pecuária próspera. Ignorar os cuidados essenciais nos primeiros meses de vida resulta em alta mortalidade, gastos astronômicos com tratamentos de emergência e animais adultos com desempenho produtivo irreversivelmente comprometido.

A implementação rigorosa dos protocolos de colostragem nas primeiras 6 horas pós-parto, a cura adequada do cordão umbilical com tintura de iodo a 10%, a reidratação imediata frente a quadros de diarreia em bezerros, o diagnóstico precoce da pneumonia em bezerros e o cumprimento fiel do calendário de vacinação de bezerros constituem o caminho mais seguro e rentável para o pecuarista. Ao aliar o conhecimento técnico ao manejo sanitário preventivo e a instalações limpas, sua fazenda garantirá lotes pesados, saudáveis e altamente produtivos ao desmame.

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